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Local: Varanda em Pernambuco

sábado, dezembro 15, 2007

Meu Deus, as antas!

Até a invasão de Pedro Álvares Cabral, não temos registro de nossa existência. Imagina-se que comíamos nossos inimigos em orgias antropofágicas e arrotávamos peru. Nossa mania de grandeza é atávica.
Mas tudo num ambiente paradisíaco de belas praias, águas cristalinas e todos nós peladões caçando antas. Hoje, ao contrário, são elas que nos perseguem.

Em Pernambuco, em 1630, já domesticados pelos invasores portugueses, recebemos novos, desta vez, holandeses. Em 1637, enviado pelas Companhias das Índias Ocidentais, uma multinacional saqueadora holandesa, por aqui aporta novo administrador, o conde Maurício de Nassau.

Dizem que o fulano era o cão chupando manga. Criou nada mais nada menos do que a cidade do Recife. Fez aterros, construiu pontes, fortes, palácios, ocupou as outras ilhas, Santo Antonio e Santo Amaro, e o continente. Não é pouco. Para garantir-se de que não sofreria ataques da resistência portuguesa em duas frentes, interior e Olinda, simplesmente tocou fogo em Olinda.

Mas nos deixou uma bela cidade que começou no porto do Recife. À época, os portugueses ficaram extasiados com as pontes que mandou construir. A primeira ligando o porto à Ilha de Santo Antônio e depois esta à de Santo Amaro. Ninguém reclamou da modernidade, nem mesmo do primeiro pedágio cobrado no Brasil. Para o populacho passar pela ponte, pagava.

Para aumentar a arrecadação, nosso Conde divulgou que um boi voaria sôbre ela na inauguração. Sucesso de público! Como um bom marqueteiro, matou um boi, encheu seu couro de palha, amarrou-o com cordas e puxou-o com roldanas "voando" sôbre a ponte. O povão delirou com o boi voador! Estava lançada a idéia do vale tudo para tungar o bolso do contribuinte!

Enquanto Nassau criava a cidade do Recife, mais ao norte, desde 1624, os holandeses começaram a construir a Nova Amsterdã, no sul da ilha, hoje, Manhattan. Com a ajuda, mais tarde, de emigrantes judeus de Pernambuco.

Assim como aqui, começaram pelo porto. Diferentemente daqui, a histórica baixa Manhattan transformou-se no centro financeiro dos USA e do mundo. Modernos e altíssimos edifícios foram sendo construídos ao longo dos séculos. Lá ficavam as torres gêmeas derrubadas pelo terrorismo. Nem esse trauma parou o desenvolvimento da área.

À beira do rio Hudson, que banha Nova Iorque, estão maravilhosos e charmosos edifícios e marinas. Essa efervescência empreendedora do americano criou, na baixa Manhattan, uma das maiores e mais belas concentrações de arranha céus, onde o moderno convive com o histórico e o valoriza e não o contrário, como alguns supõem por aqui.

No Recife, durante todos esses séculos, não se criou nada de muito representativo na sua área histórica. Ao contrário, o centro antigo foi sendo abandonado, seus casarios desocupados e, rapidamente, se transformando em ruínas.

De repente, surge uma grande oportunidade para se iniciar uma recuperação da área. Imaginem vocês que uma construtora de magníficos edifícios residenciais resolveu construir duas torres de 41 andares na beira do rio Capibaribe, em área contígua ao porto, totalmente abandonada, caindo aos pedaços, dormitório a céu aberto de mendigos, trombadinhas, cheira-colas e todo tipo de desvalidos. Loucura total, não é? Não.


Acontece que o Recife é uma das cidades mais bonitas do mundo. Sua região central antiga poderia ser belíssima se habitada e conservada. Foram feitas algumas tentativas de recuperá-la como a criação de um pólo de bares e restaurantes. Durou pouco. Sem investimento na recuperação de seu casario e prédios antigos e, principalmente, sem a construção de novos prédios residenciais que fixassem lá a população, e a eterna falta de segurança da cidade, o que era um pólo turístico desandou, e está abandonado. Poucos, do tal pólo, ainda subsistem.

Foi quando a construtora Moura Dubeux descobriu o que para mim mostrou-se óbvio. Com coragem mercadológica e pioneirismo, lançou ali um grande empreendimento residencial.



Até o início das vendas, ouvi pessoas, que se dizem experts no ramo imobiliário, desdenhando da loucura da incorporadora e antevendo seu enorme fracasso. Muito bem, lançaram as torres e o sucesso foi estrondoso. Venderam os apartamentos, diga-se, com a mais bonita vista da cidade, em prazo recorde. Aí começaram seus problemas.

Disse Oliveira Lima, diplomata e historiador, que o Recife é a capital da inveja. Não diria tanto. Diria, que aquela definição do Tom Jobim de que no Brasil o sucesso do outro é quase uma ofensa pessoal, no Recife essa é uma característica bastante acentuada.

Se o lançamento das tais torres fosse um fracasso, mesmo que as lançassem, correndo por conta dos “loucos” o prejuízo, imagino que ninguém levantaria qualquer oposição à sua construção. Mas, diante do sucesso, começaram a chover ações do Ministério Publico, de professores, com acolhimento de alguns juízes, de que as torres não se adequavam às construções históricas do entorno.

Dizem que impactará negativamente o sítio histórico de igrejas, um forte, um mercado e ruínas menos votadas. Sim, ruínas. A tal igreja citada está fechada ao público por perigo eminente de desabamento de seu teto. O tal forte, hoje, fica debaixo de um viaduto e conhece-lo é extremamente depressivo. Quase jogado às traças. Transformado em Museu da Cidade, em 1982, pelo então prefeito Gustavo Krause, em sua portaria, até pouco tempo atrás, davam ao visitante um brevíssimo histórico xerocado numa solitária folha de papel. Soube que recentemente recuperaram sua pintura.

Não me recordo de nenhum personagem do Ministério Público que tenha cobrado da prefeitura ou do governo do estado, qualquer providência para a recuperação e manutenção desses ou de qualquer outro patrimônio histórico! Muito menos dos arquitetos de sala de aula que agora protestam. Em frente ao Marco Zero, o parque das esculturas de Francisco Brennand está entregue à sua própria sorte e qualquer dia sua torre de cristal vai ao chão, carcomida pela maresia.

As torres residenciais, já com suas estruturas quase terminadas, foram aprovadas por todos os órgãos responsáveis pela liberação da construção, mas um juiz da 6ª Vara da Justiça Federal, determinou sua demolição. Em Manhattan a prefeitura dá incentivos fiscais para quem investe em áreas degradadas.

Muito bem, mas o que faz esta belíssima foto do Museu do Louvre por aqui?

O primeiro Castelo do Louvre foi fundado por Felipe II em 1190 como uma fortaleza para defender Paris contra ataques dos Vickings. No século seguinte, Charles V transformou-o num palácio. Mais tarde, reis como Luis XIII e Luis XIV também dariam contribuições notáveis para a feição do atual Museu do Louvre.

As transformações nunca cessaram na sua história, e a antiga fortaleza militar medieval acabaria por se tornar um colossal complexo de prédios, hoje voltados inteiramente à cultura.

Dentre as mais recentes e significativas mudanças, desde o lançamento do projeto "Grand Louvre" pelo presidente Mitterrand, está a construção da controversa pirâmide de vidro desenhada pelo arquiteto sino-americano Leoh Ming Pei, com 21 metros de altura e 200 toneladas de vidro e vigas.

Esta foto é emblemática de que o que confere respeito ao patrimônio histórico, é sua conservação, seu uso e manutenção. A modernidade de novas edificações frente às antigas é visitada por milhões de pessoas de todo o mundo! Esta pirâmide gerou, quando de sua construção em 1983, grande controvérsia mas venceu o bom senso de que a nova entrada respeitava o museu e, mais, o valorizava, pela belíssima visão que o contraste propiciou.

O exemplo de Paris vem a calhar. No início da década de 70 do século passado, construíram em Paris um espigão. Houve reação e em 1975, fez-se um plano diretor da cidade proibindo a construção de edifícios com altura superior a 37 metros, 12 andares. Perguntei-me porque, somente no início dos anos 1970, construíram em Paris uma torre? Não é difícil responder, não fosse Paris a cidade luz. Por que na cidade seus prédios seculares são mantidos e utilizados e preservam sua magnífica arquitetura original.

Foi criado , então, no subúrbio, um moderno bairro, La Défense, centro econômico, onde se situam as sedes de muitas grandes empresas francesas e centros comerciais. Localiza-se no prolongamento do “eixo histórico” que começa no Louvre e prosegue pela avenida dos Champs Elysées, Arco do Triumfo, até à ponte de Neuilly e o Grande Arche.

Não se tem notícia de que a visão de tais construções tenham interferido negativamente nos monumentos seculares de Paris.

Quanto às antas, espero que com nossa cultura da pobreza e do atraso não voltemos a caçá-las. Peladões!